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Cachorro sofre de depressão?

Cachorro sofre de depressão?

Há um consenso, entre os médicos e pesquisadores, de que a depressão é o mal do século.

Novos dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que os casos de depressão estão aumentando globalmente – 18,4% entre 2005 e 2015 – e que até 2020 a doença será a enfermidade mais incapacitante em todo o mundo. Também é consenso de que animais podem ajudar muito na recuperação de pessoas com depressão moderada, principalmente se esse animalzinho for um cachorro.

Estudos (como o Psychosocial and Psychophysiological Effects of Human-Animal Interactions: The Possible Role of Oxytocin que faz uma revisão de outros 69 estudos sobre o tema) mostram que os cães reduzem o estresse, ansiedade e depressão, aliviam a solidão, incentivam o exercício e melhoram a saúde em geral.

Por exemplo, pessoas com cães têm pressão arterial mais baixa e são menos propensas a desenvolver doenças cardíacas. Brincar com cães eleva a ocitocina e a dopamina (neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar e felicidade), criando sentimentos e vínculos positivos para a pessoa e seu animal de estimação.

Os cães nos estimulam a fazer exercícios e caminhadas e acabam sendo motivo para conversar com novas pessoas enquanto caminhamos ou nos sentamos em um parque para cães, o que pode aliviar a solidão que sentimos em um episódio depressivo. Isto é especialmente verdade para pessoas com 50 anos ou mais.

Ter um cachorro pode significar um bocado de trabalho, mas a responsabilidade ajuda a saúde mental. Cuidar de um animal dá um propósito às pessoas, faz com que nos sintamos necessários, amados e ajuda a afastar o foco da depressão. Alguns psicólogos afirmam que ter um cachorro ajuda a construir a auto-estima, entre outros motivos, porque prova que a pessoa é capaz de cuidar de outra criatura e de si mesmo.

Mas e nossos amigões de quatro patas?  Eles também sofrem de depressão? Você sabe reconhecer os sinais? Sabe como ajudá-lo?

Afinal, cachorro fica deprimido?

A maioria de donos de cães já teve a oportunidade de ver seu bichinho sorumbático. Sem que pareça ter qualquer explicação clínica ele fica tristinho e pelos cantos.  Parece tão triste… Será que é depressão?

Embora não seja unânime, é possível assumir que os cães passem por quadros depressivos por conta de mudanças e perdas em suas vidas. São comportamentos que demonstram tristeza e que não parecem ter qualquer correlação com doença ou outra fonte que não algo que os deixou profundamente abalados.

A Médica Veterinária Bonnie Beaver, DVM, diretora executiva do Colégio Americano de Comportamentos Veterinários, diz que ainda não se sabe se os cachorros sofrem de depressão: “É difícil saber, porque não podemos perguntar a eles”, disse Beaver, que também é especialista em comportamento animal na clínica de pequenos animais da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Texas A&M. “Mas na prática clínica, existem algumas situações em que essa é a única explicação.” Segundo ela, embora não seja incomum que animais de estimação demonstrem comportamentos compatíveis com a depressão, especialmente durante períodos de mudanças e ajustes a uma nova rotina, é raro que os cães sofram de depressão a longo prazo.

A depressão canina é igual a humana? 

Ninguém sabe ao certo, mas provavelmente não, pois nossos peludos possuem uma forma de interação com as experiências emocionais menos complexas que as nossas. É importante diferenciar comportamento deprimido de um diagnóstico real de depressão clínica. Mesmo nas pessoas, com a capacidade de explicar o que estão enfrentando e um longo histórico de dados explorando os aspectos físicos da depressão, a depressão como diagnóstico médico ainda é pouco compreendida e não existe teste biológico para diagnosticar com segurança a “depressão maior” ou “transtorno depressivo maior “- como é clinicamente chamada a depressão. Nos seres humanos o diagnóstico envolve conversar com o paciente e obter um histórico completo. Quando se trata de nossos companheiros caninos é ainda mais difícil, pois ficamos limitados às nossas observações do comportamento deles para determinar o que está acontecendo.

Quando falamos de um cão deprimido, estamos nos referindo a um cão que está exibindo uma mudança de comportamento compatível com a depressão, que se manifesta como uma diminuição do interesse em atividades normais ou uma mudança na interação com sua família. As caminhadas não são mais a atividade que os deixa dando pulinhos de alegria, a comida não parece tão boa, a chegada de sua pessoa favorita não garante mais do que um mero levantar de sobrancelha.

O “x” da questão é que muitos dos sinais que nos indicam que um cão está deprimido são consistentes com outras doenças e problemas de saúde. Seu cachorro não quer mais passear? Talvez ele esteja com artrose, ou displasia. Quase não come? Ele pode ter doença renal ou gástrica, que o deixa muito enjoado e sem apetite. Ele mal vem te receber na porta? Seu bichinho pode estar com fraqueza devido à uma anemia profunda causada por doença de carrapato. Por esse motivo, é importante que o veterinário seja a primeira pessoa a ser consultada sempre que seu amigão exibir uma mudança de comportamento consistente com a depressão. Alguns dos sintomas comuns que normalmente estão relacionados a uma condição médica são os seguintes:

– Diminuição do apetite;
– Regressão na higiene dentro de casa / aumento de xixis e cocôs fora do lugar;
– Dormindo mais horas que o normal;
– Falta de interesse no exercício;
– Início repentino de agressão;
– Ficar desorientado ou perdido pela casa.

Quais são as principais causas de depressão em cães? 

As personalidades caninas são tão individuais quanto as personalidades humanas, portanto, as razões para se sentirem deprimidos podem variar. No entanto, existem alguns gatilhos comuns que podem levar à depressão. Nossos peludos são, reconhecidamente, sensíveis às mudanças nos comportamentos dos humanos e do ambiente que os cerca, e grandes mudanças podem desencadear comportamentos depressivos. Isso inclui mudar para um novo lar, um novo cônjuge, divórcios, a chegada de um bebê na casa, a morte ou vinda de outro animal de estimação. Às vezes, coisas que nós, pais e mães de patudos, nem percebemos como “mudanças drásticas”, como um novo trabalho que causa uma mudança nos horários e na rotina da casa, pode deixar o cão inseguro e causar depressão por um tempo. Mas os dois gatilhos mais comuns do comportamento depressivo severo nos cães são a perda de um animal de companhia, ou a perda do dono.

Outro fator ao qual devemos estar atentos é a depressão de um humano que é importante para o peludo. Os cães podem sentir a nossa dor e, a partir da observação da nossa tristeza e depressão, podem imitar nossos sentimentos.

Quais são os sinais aos quais devemos estar alertas? 

Segundo o médico veterinário John Ciribassi, DVM, ex-presidente da Sociedade Veterinária Americana de Comportamento Animal, os sintomas de depressão em cães são muito semelhantes aos das pessoas. Os peludos adotam comportamentos retraídos e pouco ativos. Seus hábitos alimentares e de sono geralmente mudam e não participam das coisas de que gostavam normalmente.

Também, como já falamos anteriormente, esses sintomas podem estar relacionados com doenças e não exatamente com depressão. A verdade é que você deve confiar nos seus instintos (afinal ninguém conhece seu filho patudo melhor do que você), mas seja depressão ou não, os sinais de alerta devem ser sempre investigados e tratados, pois sem dúvidas demonstram que algo está errado.

  • Mudanças de comportamento ou humor

Um cão normalmente alegre e carinhoso se mostra arredio, ou até mesmo agressivo. Não tem prazer na companhia dos donos ou, se normalmente é mais tranquilo, passa a demonstrar sinais de ansiedade quando as pessoas não estão por perto. As vezes o cachorrinho é naturalmente carinhoso e passa a ser grudento, chorão e implora por contato o tempo todo.

  • Mudanças de apetite

Um cão deprimido pode parar de comer ou comer como se tivesse passado fome a vida inteira. A comida que antes ele abocanhava com prazer pode ficar horas e horas no prato.

  • Muitas horas dormindo

O cão adulto dorme, em média, cerca de 12 a 14 horas por dia, e os filhotes dormem de 18 a 20 horas. Ou seja, a diferença pode até ser sutil, mas se o seu cão é adulto e começa a dormir como um filhote pode ser depressão.

  • Comportamento de automutilação

Cães deprimidos podem passar muito tempo se mordiscando, mordendo o rabo, ou se lambendo excessivamente. Alguns chegam a fazer feridas e até mesmo deixam as unhas moles de tanto que lambem as patas, embora a depressão não seja o único fator da lambedura excessiva ou mordidas na pele (razões fisiológicas como infecções, fungos, dor e pele seca também podem causar esses sintomas).

  • Se escondendo

Cães são animais gregários e que precisam estar sempre por perto de seus familiares. Se seu peludo passou a ficar mais longe de todos e procura passar mais tempo sozinho, não é um bom sinal.

O que podemos fazer para ajudá-los? 

A boa notícia nessa história de depressão canina é que a maioria dos peludinhos se recupera sozinho em algumas semanas, ou poucos meses, mas isso não quer dizer que devemos sentar e ficar esperando. Existem várias coisas que podemos fazer para melhorar o ânimo deles, depois, é claro, de termos descartado possíveis doenças. Seja qual for o motivo da depressão do seu filho peludo, experimente:

  • Manter a rotina do dia a dia o mais estável possível e próxima de como era antes da depressão;
    • Aumentar a quantidade de exercícios físicos, seja através dos passeios diários, ou com brincadeiras dentro de casa;
    • Reservar um tempinho do dia para se dedicar a ele em atividades prazerosas, como escovar o pelo suavemente;
    • Ensinar um comando ou truque novo (ou reforce um que ele já saiba), usando petiscos e muito carinho como recompensa;
    • Levá-lo para brincar com outros cães em parques e pracinhas, principalmente se ele for sociável;
    • Considerar com muito cuidado a possível adoção de um novo companheiro canino ou felino para seu mascote.  Sim, seu cachorro pode adorar ter uma nova companhia para superar a tristeza (e talvez a perda de um outro cão), mas nem sempre um novo amiguinho de quatro patas fará ele feliz.  As mudanças e desafios para se adaptar à um novo membro na família pode deixar seu peludo mais estressado e até mais deprimido. Em todo caso, se todos da família quiserem e estiverem de acordo que ter um novo cachorro ou gatinho será uma experiência desejada, considere levar o seu cão para escolher o novo companheiro, assim as chances dele se animar serão bem maiores.

Se nenhuma dessas atividades parece estar ajudando, seu veterinário ainda poderá ajudar. Na maioria das vezes os medicamentos são considerados como o último recurso, mas há casos em que são a melhor opção. Um veterinário com experiência em comportamento animal pode prescrever um medicamento que, ao ser usado por algum tempo, irá tirar seu patudo da crise. Como dissemos anteriormente, a tristeza profunda dos cães muitas vezes se resolve por conta própria após um curto período, mas algumas vezes só pioram. É importante estar atento e não demorar muito para tomar uma atitude no sentido de animar e tratar nossos bichos. A depressão, se deixada muito tempo, pode se transformar em uma condição física com risco de vida. Se você desconfia que seu cão está tendo dificuldades para superar a tristeza procure ajuda e sempre começe pela visita a um veterinário.

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