Voltar para os artigos

Já conversou sobre maconha com seu filho peludo?

Já conversou sobre maconha com seu filho peludo?

Nunca pensei muito no assunto e talvez você também não, mas eis que surgiu a dúvida: o que fazer se um peludo ficar “chapado”?

Será que é Fake News? 

Pode parecer meio absurdo pensar que um cachorro ou gato vá ficar drogado com maconha, mas esse é um fenômeno que já está preocupando donos de cães e gatos nos EUA, com a liberação em alguns Estados do uso medicinal ou recreativo da Cannabis. Na verdade, nos últimos cinco anos houve um aumento de 330% no número de pessoas que procuraram ajuda da Pet Poison Helpline (um atendimento para ajudar a pessoas cujos animais têm contato com substâncias perigosas, tóxicas ou venenos) e o baseado pode ser a causa desse aumento expressivo.

Mas onde é que o peludo consegue a erva?

Seu bicho, ou melhor, o bicho do seu amigo ou vizinho, pode ficar doidão comendo acidentalmente um restinho de bituca do cinzeiro, um pacotinho deixado na mochila, no chão ou algum lugar que ele não deveria ter metido o focinho. Até a “maresia de segunda mão” pode deixar seu amigão viajando. O quão chapado o cão ficará vai depender da concentração e tempo de exposição à fumaça, além do tamanho e peso do peludo. Também seja cauteloso com as aplicações tópicas – se o seu cão lambe uma área que foi tratada com maconha tópica, ele pode simplesmente estar “recebendo” uma dose.

Filhotes, pela sua natural curiosidade e paladar pouco seletivo, são os que estão em maior risco.

O bicho comeu, e agora?

Claro que se o peludo ingerir a erva deixada ao acaso você deve ficar atendo e preocupado, e não bravo. Chame logo o seu veterinário, seja honesto – com certeza ele não vai julgar ninguém por esse acidente – e procure informar tudo com o maior detalhe possível:

  • Quanto tempo tem que o bicho ingeriu o beck
  • Qual a quantidade aproximada
  • Quais sintomas ele está apresentando
  • Qual o peso e a idade do seu amigão

Enquanto fala com o veterinário, coloque seu cão ou gato em um local com pouco estímulo. Um lugar quieto, sem barulho e sem muita luz.

O que ele está sentindo, corre risco de morte? 

Os sintomas após a ingestão variam bastante, mas a boa notícia é que raramente são fatais. De acordo com um estudo publicado em 2013 na Topics in Companion Animal Medicine, esses sintomas podem incluir vômitos, tremores, agitação e, em alguns casos, convulsões, dependendo da dosagem consumida e da potência da maconha. Por exemplo, um cão que comeu um brownie de maconha pode ter uma reação maior ou mais grave do que um filhote que acidentalmente comeu um broto de maconha, especialmente se o primeiro contém chocolate. Os produtos químicos do chocolate, especificamente a teobromina, são frequentemente responsáveis ​​pelo vômito e pelo desconforto no estômago de um cão.

Este mesmo estudo observa que “embora a droga tenha uma alta margem de segurança, foram observadas mortes após a ingestão de produtos alimentícios contendo a manteiga de THC”, talvez por causa do processo usado para produzí-la, que envolve calor e altera os compostos, ou por causa da sua maior concentração. Doses altas, como 3 gramas de THC por quilo de peso, podem ser fatais.

Mas, e o uso medicinal? Pode fazer bem para nossos bichos?

Na verdade, existe uma comunidade crescente de pessoas que dão biscoitos e outras guloseimas a animais de companhia que contêm CBD (ingrediente não psicoativo da Cannabis, diferente do THC) para tratar certas doenças. Já foi provado que a Cannabis pode ser um forte aliado para uma ampla variedade de condições médicas, incluindo câncer, convulsões e dores crônicas em seres humanos e, agora, as pessoas também estão usando-a para tratar os problemas de saúde de seus animais de estimação.  Segundo Darlene Arden, que é uma consultora de comportamento animal certificada que defende a maconha medicinal para animais, as pessoas que tratam seus animais com CBD para lidar com problemas médicos disseram estar muito satisfeitas com os resultados.

No entanto, para a maior parte da comunidade veterinária, essa questão permanece duvidosa devido à falta de pesquisa, enfatizando que não se sabe quais são as dosagens adequadas para cães e outros animais de estimação.

Antes de sua morte devido ao câncer, o chamado “guru veterinário” Doug Kramer era um defensor da maconha medicinal para animais. Kramer primeiro deu maconha ao seu próprio husky siberiano quando Nikita tinha 12 anos e sofria de dor crônica. Os canabinóides têm efeitos semelhantes nos animais e nos seres humanos, com aumento do apetite e diminuição da náusea, disse Kramer. Deu-lhe mais seis semanas com seu amado cão antes de morrer.
“Eu me cansei de sacrificar animais de estimação quando não estava fazendo tudo o que podia para melhorar suas vidas”, disse ele em entrevista à Associated Press em junho de 2013. “Eu senti como se os estivesse decepcionando.”
Kramer receitou uma gota de maconha líquida misturada ao queijo para cada 450 g de peso corporal, disse Darlene Arden. Em entrevista ao BuzzFeed, ela disse que “a AVMA (Associação Americana de Medicina Veterinária) não irá aprovar o uso medicinal da maconha até que haja estudos”. “Eu concordo que deve haver estudos, mas, ao mesmo tempo, não acho que os animais devam esperar anos para tratamento, para alívio da dor e / ou náusea”. A maconha medicinal oferece alívio da dor para cães que sofrem de artrite, disse Arden. Ela também mencionou que diminuiu a náusea em cães submetidos a quimioterapia, enquanto aumentava o apetite. “Isso lhes dá qualidade de vida”, acrescentou Arden.

Por outro lado, cães que foram atendidos por veterinários nos Estados Unidos após ingerir maconha com THC mostraram sintomas como letargia, problemas respiratórios, agitação, pressão arterial baixa, ritmos cardíacos anormais, perda de equilíbrio e incontinência.  Segundo a Dra. Tina Wismer, diretora médica do Centro de Controle de Intoxicações Animais da ASPCA, “cerca de 25% dos animais, em vez de ficarem calmos e relaxados, ficam ofegantes, estimulados e muito angustiados”. Isso representa um desafio, porque não há como saber quais cães serão afetados dessa maneira.

A Dra. Robin Downing, uma médica veterinária do Colorado que também é uma profissional certificada em dor e reabilitação, disse ao BuzzFeed que acredita que há um caminho promissor para o uso da maconha na medicina animal. Ela explicou que cães e gatos têm receptores no sistema nervoso chamados receptores de canabinóides, que permitem que sejam afetados pela maconha. “Eles têm a fechadura e nosso trabalho agora é encontrar a chave que se encaixa nessa fechadura”, disse Downing. “E é em algum lugar na planta de maconha.” Ela acredita que vai abrir uma porta totalmente nova, “mas vai exigir muita pesquisa antes de termos algo que possamos usar com segurança e consistência”.

Na dúvida… 

Enquanto isso, nunca se esqueça que você é responsável pela integridade do seu amigo de quatro patas. Nem tudo o que é bom para os humanos é bom para eles, principalmente sem sabermos a dose certa. E se você não usa a erva, mas tem amigos que sim, tome cuidado com o que os seus convidados jogam fora ou guardam.

Qualquer sobra deve ser descartada em um lugar que seu amigão de quatro patas não tem acesso, ou guardadas em um pote hermético e resistente. Se você estiver na casa dos amigos, ajude a ficar de olho para o cachorro (ou gato) da casa não ficar chapadão.


Claudia Pizzolatto

Deixe um comentário 1 comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.