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O cachorro e a Copa do Mundo

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É tempo de Copa e no país do futebol, ninguém escapa. Todos nós somos obrigados a conviver com demonstrações explícitas de patriotismo, que em qualquer outra época do ano não existem. Com os horários dos jogos que fazem parar o país todo… Com o cunhadão que chegou na hora do jogo sem avisar, se apossou da melhor poltrona, bebeu todas as cervejas geladinhas e ainda por cima insiste em ver a transmissão do jogo naquele canal que você odeia… Com os sufocos e o coração quase parando toda vez que a Seleção não faz gol, mas quase leva… Com pulos, gritos, cornetas, rojões… Todo mundo, mesmo quem não é chegado a futebol, tem que se render. É uma grande festa! Eu disse “todo mundo”? Bem, nem todo mundo, pois existe uma turminha seleta que verdadeiramente detesta toda esta barulheira e não vê a menor graça nos fogos, nas cornetas, e nos gritos de gooooooooooooooooooooooool.

Claro que você já sabe de quem estamos falando. Dos cães, pequenos ou grandes, e gatos, que simplesmente entram em pânico com tanto barulho e movimento. É para tentar ajudá-los, e também aos donos deles, que estamos escrevendo esta mensagem. Como nós gostamos da linha “jornalismo verdade”, vamos tomar o caso de um cachorro meu amigo que, para protegermos a sua privacidade, chamaremos apenas de Sr. Rex.

Estávamos na casa de Sr. Rex para assistir o jogo do Brasil na fatídica Copa do Mundo de 2014. Muita gente animada, telão, comes e bebes à vontade, e os humanos muito felizes.  Só Sr. Rex parecia não relaxar. Logo que chegamos ele estava bem. Veio nos receber na porta com o entusiasmo próprio de quem é o melhor amigo do homem, mas ainda assim ele parecia um pouco apreensivo, como prevendo o que viria a seguir. Começou o jogo e Sr. Rex ficou bem pertinho de mim. Como já sabíamos da fobia dele a fogos de artifício, deixamos o Sr. Rex de coleira no pescoço e preso à guia.

E então o Brasil marcou um gol. E outro (não era o jogo contra a Alemanha, claro). Em meio a felicidade e gritaria de todos, Sr. Rex parecia perdido e desorientado. Tentava correr de um lado para outro sem parar e parecia procurar um lugar para se esconder o mais rápido possível, pois o final dos tempos estava próximo. Disso ele sabia.

A mãe humana de Sr. Rex veio correndo em seu socorro. Ela beijou, abraçou, fez cafuné na cabeça de Sr. Rex enquanto dizia palavras de consolo. Nada parecia fazer efeito, pelo contrário, quanto mais carinho Sr. Rex recebia, mais ele tremia (a esta altura acho que muitos de vocês já conseguiram se identificar com esta situação).

O que estava errado com Sr. Rex? Para começar, vamos analisar as possíveis causas para um cachorro com medo de fogos e barulho.

O MEDO É CAUSADO POR FATORES GENÉTICOS

Alguns cachorros são mais sensíveis do que outros com relação a sons e movimentos bruscos. Eles já nasceram assim, e na ninhada eles pareciam procurar sempre um cantinho para se esconder quando alguém batia palmas ou dava um assobio forte perto deles. O filhote pode ter “puxado” a um dos pais, que também era “medroso”, ou então esta pode ser uma característica individual dele. Quando o medo é genético, não há muita coisa que possamos fazer para ajudar o cachorrinho. O jeito é tentar a dessensibilização gradual (vamos discutir mais adiante) e torcer para que ele supere seus medos da melhor maneira possível.

O MEDO É CAUSADO POR UM TRAUMA

Existem dois períodos na vida de um filhote nos quais ele é traumatizado com mais facilidade – isso quer dizer que experiências ruins tendem a se fixar na memória dele para o resto da vida. O primeiro ocorre entre 8 e 11 semanas de vida, e o segundo do 6º ao 14º mês. O início e o fim de cada período, bem como a intensidade do trauma, variam de cachorro para cachorro, mas quase todos passam por esta fase sem muitos sustos.

O MEDO É CAUSADO PELA FALTA DE EXPOSIÇÃO A SITUAÇÕES NOVAS

Tal como os bebês, os filhotinhos também aprendem a reagir de acordo com o meio ambiente que vivem. Se um cachorrinho é trazido para uma família cheia de crianças, dificilmente irá se importar com a barulheira generalizada. Por outro lado, filhotes criados em casas praticamente silenciosas, onde todos falam baixinho com ele, onde os filhos (quando existem) já são crescidinhos e não fazem tanto barulho assim, provavelmente vão estranhar horrivelmente se alguém berrar. Os cães criados em casas sem barulho tendem a ficar mais inseguros quando bombinhas estouram, quando a criançada bate uma pelada na frente da casa, ou quando o cunhadão gentilmente comunica que a festa do sobrinho de três anos vai ser na sua sala.

O MEDO É CAUSADO PELA ASSOCIAÇÃO DO BARULHO COM ALGUMA EXPERIÊNCIA DESAGRADÁVEL

Mesmo que o cachorro não esteja mais na fase de impressão do medo, se uma tábua de passar roupa cair em cima da patinha dele, causando dor e fazendo um barulhão danado, pode contar que o bichão vai passar a ter pavor de sons altos e secos. Às vezes a associação é ainda mais sutil, por exemplo, se uma porta bater com o vento bem antes do cachorro levar um pisão. Diferente daquelas fases de medo do filhotinho, aqui os estímulos negativos precisam ser muito fortes para que o temor se torne permanente.

O MEDO É RECOMPENSADO CONSTANTEMENTE

Em todos os casos o mais comum, e o pior que se pode fazer, é recompensar o medo com carinhos e afagos. Toda vez que o cachorro apresenta sinais de medo e nós tentamos acalmá-lo com palavras suaves, com carinhos ou dando colinho, estamos passando a mensagem incorreta de que medo é bom, bonito, e cachorro medroso ganha cafunés extras. Para o peludo não faz a menor diferença se o que você está falando para ele é “não se preocupe, meu lindinho, mamãe está aqui e nada vai acontecer. Calminha, calminha”, ou “batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, corre corre cachorrinho, que lá vem bicho-papão.”

O que vai dar sentido às suas palavras é o tom de voz que você emprega e o que você faz com o cachorro nessa hora. Tom de voz macio é carinho; carinho é recompensa; recompensa reforça o comportamento atual. Logo, cachorro com medo de fogos é lindinho!

O QUE FAZER?

  • Para evitar problemas, exponha o seu filhote com segurança. Faça festas em casa para ele. Convide os amigos e familiares, que gostem muito de cachorros, é claro, para uma festinha em homenagem ao bebezão. Peça para todos tirarem os sapatos na porta, assim você diminuiu as chances de que o filhote, ainda sem vacinas, possa ficar doente (avise com antecedência para evitar vexames com meias furadas e tênis fedorentos). Mantenha em mente que a festa é para o filhote, então ele pode ficar passeando pela sala. Escolha um horário tranquilo e faça a festa “rapidinha”. O importante é que o cachorrinho veja bastante gente simpática, que barulhos normais de festa sejam associados com coisas boas (carinhos e sorrisos),e que ele possa se divertir também sem ficar estressado;
  • Com o consentimento do veterinário (que vai orientar se a região em que você mora é muito perigosa para a saúde do seu filhote),leve o pequeno peludo para passear de carro ou no colo. Deixe-o ouvir os sons da rua e converse com ele calmamente. A qualquer sinal de estresse do pequeno, simplesmente volte para casa sem muito drama. Lembre-se, nada de tentar consolá-lo, apenas dê meia volta e tente novamente num horário mais calmo;
  • Se você não quer um cachorro que fique nervoso em situações novas, prepare-o para as situações mais diversas possíveis, e principalmente para aquelas que provavelmente irão fazer parte da vida dele no futuro. Deixe os filhos do vizinho brincarem com ele, leve-o para a janela ou para a frente da casa se estiver acontecendo algo de “novo” na sua rua. Ligue os aparelhos domésticos com segurança, sem forçá-lo a ficar perto do secador de cabelo ou do aspirador de pó;
  • Evite situações em que o filhote pode ser traumatizado nos períodos mais sensíveis da vida dele. Tenha uma atitude positiva, mas não superproteja. Peça para as crianças (pequenas e adultas) não brincarem de dar sustos no filhote, especialmente nas fases de impressão do medo. Ah! E grite gooooooool de vez em quando, deixando claro que você está alegre 🙂

Para corrigir os problemas já existentes:

O método a ser empregado para corrigir problemas de medo variam de cão para cão, de acordo com o grau de sensibilidade e medo do peludo. Todos tomam tempo e exigem paciência. Alguns cães têm melhora sensível, outros menos, mas sempre vale a pena tentar, já que é pelo bem do peludo.

1. Motivação e Mudança de Comportamento

Este método consiste na mudança de comportamento da família para mudar o comportamento do cão. O negócio é fazer muita festa e procurar estimular o peludo a investigar a fonte do barulho, e não deixá-lo fugir ou tentar protegê-lo. No caso da Copa, coloque uma coleira e uma guia no cão e toda vez que o Brasil fizer gol procure levar o bicho para janela, ou para o quintal. Corra de um lado para o outro, junto com ele, fingindo que você está procurando o bicho barulhento (os fogos, no caso). Diga para o cachorro que o barulho vem de um bicho malvado que está soltando “pum” no território dele, se “o bicho” não funcionar diga que é o cachorro mau caráter do vizinho (ou seria o cachorro do vizinho mau caráter?),tanto faz, o importante é usar palavras estimulantes como: olha! Procura! Pega! Vamos ver! Quissi-Quissi! Qualquer coisa que deixe o seu cachorro excitado. Ao menor sinal de interesse (levantar as orelhas, por exemplo),aproveite para incentivá-lo dando tapinhas amorosos no dorso.

Continue encorajando o cão com “palavras de ordem”. Depois de alguns minutos de farra, especialmente se os fogos já tiverem parado, diga: “Muito bem amigão, colocamos ele pra correr!”, e volte para a sala, deixando o cachorro solto e livre para ir aonde ele quiser. Se ele se esconder, vá chamá-lo quando o jogo estiver meio paradão, ou quando alguém do time adversário estiver fazendo cera no chão, fingindo que foi atingido. Sim, porque jogador brasileiro NUNCA faz isso!

Se o cão ficar deitadinho do seu lado, com aparente calma, pode enchê-lo de afagos, caso contrário NÃO TENTE PROTEGÊ-LO!!!! Com sorte você vai ter muitas chances de praticar, pois o Brasil ainda vai fazer muitos gols!

2. Dessensibilização
Para os cachorrinhos que não se contentam com a “Motivação e Mudança de Comportamento” é preciso ter um pouquinho mais de trabalho. No próximo jogo pegue um celular que grave sons e deixe o aparelho na janela. Não comemore os gols, mas vá correndo até a janela e grave o barulho dos fogos e das cornetas. Se o cunhadão mala estiver assistindo o jogo na sua casa, basta gravar o barulhão que ele vai fazer de qualquer jeito. Grave o maior tempo possível de barulho e vá baixando para o computador, repita as gravações até ter um bom período de barulhos gravados e passe para um pendrive. Durante a semana, com a vida calma que Deus lhe deu (há),coloque o pendrive em um aparelho de som, com o volume próximo do mínimo.

Aproveite para usar a Thundershirt, a camisa calmante, e engajar seu cachorro na atividade que ele mais gostar. Jogue bolinha, brinque de esconde-esconde, dê pequenos pedaços de biscoito, o que for. A cada dia que passar aumente só um tiquinho de nada o volume e continue fazendo as brincadeiras com o seu cão, até você notar que ele está percebendo o barulho no gravador. Estamos falando de olhar de vez enquanto na direção do gravador, mas não de demonstrar sinais de medo. Deixe o volume aí e continue praticando todos os dias, até o cachorro não prestar mais atenção no barulho.

Aí é hora de levantar o volume só mais um pouquinho. Continue assim até conseguir fazer com que o seu cachorro não tenha mais medo dos barulhos, mesmo com o volume alto. Se durante o processo seu peludo ficar apavorado, abaixe o som até ele se sentir confortável. Em hipótese alguma tente acelerar o processo se o cachorro não estiver pronto para o próximo passo. Normalmente este método leva um bocado de tempo (talvez você não consiga sucesso total até o final da Copa),mas uma vez atingido o objetivo o cão fica tranquilão pro resto da vida. Ah! Durante os jogos da Copa você pode deixar o cachorro ficar no cantinho mais quieto possível da casa (ele vai te dizer que cantinho é este) ou tentar usar o método da Motivação, mas só se o seu cachorro não estiver entrando em pânico total. Use sempre a camisa calmante Thundershirt, e você verá melhoras significativas nas reações dele.

Deixe o cachorro ficar sozinho onde ele quiser

Se você não tem muita paciência para tentar recuperar o peludão, pelo menos não piore as coisas tentando consolá-lo. Permita que ele escolha um cantinho da casa e deixe o bicho em paz. Se você tem uma caixinha de transporte ou uma casinha talvez seja uma boa opção para o peludo se sentir mais protegido. Ponha a caixa de transporte num cantinho escurinho, de preferência onde o cão possa ver você e a porta da sala ao mesmo tempo. Biscoitinhos e guloseimas só quando o cachorrão estiver relaxado, ou seja, quando não estiver acontecendo nada mesmo no jogo.

Se TUDO falhar e o seu cachorro estiver apresentando sinais de estresse extremo, converse com o seu veterinário e veja a possibilidade de dar algum remédio para ele antes dos jogos. Em hipótese nenhuma medique o seu cachorro sozinho.  Muitas vezes os calmantes têm efeito inverso, deixando o cachorro ainda mais agitado. Além disso, tudo o que você e o seu cachorro não precisam é de uma visita de emergência ao veterinário bem na hora em que o Neymar for bater o pênalti decisivo da prorrogação. A camiseta calmante Thundershirt será o abraço tranquilizante que seu peludo necessita.

Bem, você deve estar curioso para saber como é que nós resolvemos o problema do Sr. Rex. O medo do Sr. Rex é provocado pela falta de exposição a barulhos altos (a família humana dele é muito calminha e carinhosa) e talvez um trauma, pois ele teve que voar dos EUA para o Brasil quando tinha apenas dois meses de vida. Para piorar, a “mãe” humana do Sr. Rex sempre tentava acalmá-lo com carinhos e afagos. Neste caso usamos o método da mudança de comportamento pela motivação. Em apenas um jogo o comportamento de Sr. Rex melhorou muito, e quase virou um torcedor!

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E OS GATINHOS?

Não é só o sr. Rex e outros tantos cães que se assustam com barulhos e foguetório – os bichanos também podem sofrer bastante. Se é o caso do seu, além de tentar recursos como a camisa calmante, suplementos e feromônios, providencie um local seguro para ele se esconder, como um quarto – uma ideia é deixar um armário aberto para ele se abrigar, mas muito cuidado para não trancá-lo lá dentro! Preste atenção em janelas abertas (embora a gente tenha certeza de que as da sua casa são teladas) e deixe disponível água, comida e a caixinha de areia.

Se você mora em casa, atente aos muros – com pânico, até os que não saem de casa podem tentar escalar – e ao motor do carro, onde ele também pode tentar se abrigar. Cuidado, também, na hora de abrir o portão se chegar alguém.

Manusear o gato quando ele está estressado é um risco – você pode levar um arranhão (mantenha as unhas aparadas!) ou mordida. Se ele se mostrar receptivo, uma boa escovação pode ajudar a acalmá-lo.

Cláudia Pizzolatto

 

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