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Ora, bolas!

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Se tem um tema que gera discussões para lá de acaloradas é a castração – a retirada dos testículos nos machos e dos ovários e útero na fêmea. Quando o assunto entra na roda, a gente nota claramente a cara de pavor e apreensão de proprietários homens. Mas, afinal, é realmente necessário? O cachorro vai ficar gordo e bobão?

A castração ainda é um grande tabu, uma prática que as pessoas ainda veem como uma mera mutilação e injustiça com os cães. Nem todos sabem que ela pode ajudar em problemas comportamentais dos nossos companheiros peludos, e não é só um meio de evitar filhotes numa casa onde existam machos e fêmeas vivendo juntos. Não estou, aqui, fazendo apologia do uso da castração como um método indiscriminado e milagroso para resolver problemas comportamentais em cães. Apenas peço que vocês leiam este artigo com interesse e com a mente aberta. Quanto a mim, prometo que vou tentar fazer este artigo o mais simpático, divertido, instrutivo e agradável possível. Muitas vezes a castração é trazida como uma alternativa (às vezes, a última esperança) para cães que estão praticamente com os dias contados em seu lar: é o caso daqueles que dividem o mesmo teto e brigam sem parar, que são extremamente possessivos ou dominantes, ou que marcam o território “deles” (leia-se a casa do dono) com pocinhas e mais pocinhas de xixi. É aí que começam os problemas de ordem física/emocional.

Talvez por um problema cultural, é sempre melhor aceita a castração ou esterilização de fêmeas (mesmo que humanas),do que de machos. Mesmo que, segundo os veterinários, a esterilização nos machos caninos seja menos traumática, de recuperação mais rápida, mais barata e menos arriscada.

Muitas pessoas querem um filhote do seu adorável cachorro, ou pretendem passar pela experiência de acompanhar a gestação da cadela e curtir seus bebezinhos. A questão, porém, às vezes esquecida, é que esses seres indefesos são responsabilidade do proprietário. Será que é fácil conseguir bons lares para oito, dez cachorrinhos sem raça definida, por exemplo? Será que a sua vizinha, que gosta tanto do seu poodlezinho, vai cuidar com o mesmo cuidado que você do filhote que adotar? Gerar novas vidas com dignidade tem um custo considerável, que vai do acompanhamento veterinário durante a gravidez até a vacinação e vermifugação dos pequeninos. Sem contar que existem muitos, mas muitos cães abandonados nas ruas e em abrigos, esperando por um lar. Será mesmo necessário engrossar estes números se os filhotes não forem adotados ou vendidos?

Mas vamos voltar aos aspectos comportamentais dos caninos que é o nos interessa no momento. Primeiro, para a gente tirar da frente logo os aspectos técnicos da castração, vamos a algumas informações. Segundo os veterinários, existem pelo menos duas técnicas mais usadas para a remoção dos testículos do macho. Uma é feita através de uma incisão na bolsa escrotal (saquinho) do cão e outra através duas pequenas incisões na base do pênis. No caso da fêmea a cirurgia é feita por uma incisão na barriguinha, onde o útero e os ovários são removidos. Nestas cirurgias é usada a anestesia geral e a maioria dos veterinários orienta seus clientes para que o cachorro tenha no mínimo entre 5 e 6 meses de idade, embora já exista nos Estados Unidos alguns veterinários que operam filhotinhos com 7 ou 8 semanas de vida. A instituição líder neste tipo de procedimento é a Massachusetts Society for Prevention of Cruelty To Animals do Angell Memorial Animal Hospital de Boston. Como toda cirurgia, principalmente por envolver anestesia geral, existe um certo risco, mas de um modo em geral é considerada bastante segura, e a recuperação tende a ser muito rápida.

A castração não deve ser usada como o único recurso para corrigir problemas de temperamento e de maus hábitos do cachorro, mas junto com um programa de mudança comportamental, pode ser uma ajuda valiosa e definitiva. Em que casos a castração é aconselhada? Para fêmeas são especialmente indicadas nos casos de agressão por proteção/possessividade e para cadelas que fogem. Em cadelas que brigam entre si por dominância, existe um estudo que diz que a castração antes dos dois anos de idade pode piorar a situação em cerca de 50% dos casos.

Isto porque a falta de estrogênio deixaria de compensar o equilíbrio em fêmeas que foram “masculinizadas” durante a gestação (segundo uma teoria defendida por John Fisher – treinador e comportamentalista inglês, reconhecido internacionalmente – a masculinização de uma fêmea ocorre quando ela é gerada entre dois machos, ainda na barriga da mãe). As fêmeas “masculinizadas” são aquelas que levantam a patinha para fazer xixi, montam em outros cães e pessoas, e apresentam uma dominância exacerbada entre outros comportamentos atípicos.

Quanto à saúde física, a castração de fêmeas antes da puberdade praticamente zera a possibilidade de ocorrer câncer de mama, além de ficarem totalmente livres de câncer e infecção de útero e ovários. Outros estudos sugerem que a castração ajuda a minimizar ou resolver problemas como a gravidez psicológica.

Em machos, a castração parece ter benefícios ainda maiores (desculpem, rapazes!). Um estudo conduzido pela Veterinary Medical Teaching Hospital of the University of California e pela Small Animal Clinic of Michigan State University sugere que a castração em cães machos pode ajudar significantemente em comportamentos indesejados, como:

fugir
agressão contra outros machos
marcação de território com urina,
e montar em outros animais e pessoas

O estudo avalia ainda se a mudança no comportamento foi rápida (mudanças evidentes até duas semanas após a cirurgia) ou gradual (mudanças em aproximadamente seis meses após a cirurgia). Embora este estudo não deva ser considerado uma representação completa e acurada das percentagens de mudança de comportamento, serve como guia para avaliação das chances de sucesso com esta operação.

Fazendo um resumo dos casos de castração em machos estudados a gente tem os seguintes resultados:

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Foram estudados ainda os efeitos da castração na redução da AGRESSÃO/DEFESA TERRITORIAL e também na redução da AGRESSÃO POR MEDO, mas em ambos os casos não houve qualquer mudança nos cachorros. Ou seja, a castração NÃO interfere com o instinto de guarda do cão, tampouco o torna menos medroso.

Também NÃO ficou provado que a castração torne os cães letárgicos, embora alguns donos tenham notado que seus cachorros se tornaram mais calmos e mais carinhosos de modo geral.

Vale lembrar que existem diversas causas para um cachorro ser agressivo e a castração não vai influenciar em todos os casos. Além disso, a testosterona (hormônio masculino) não causa por si só a agressão, mas ajuda a “alimentá-la” e a mantê-la. É sempre importante entender as causas do comportamento agressivo de um cão e sempre estabelecer um programa de treinamento e mudança comportamental para tentar solucionar o problema. Veterinários também aconselham que sempre que houver uma piora em relação a agressividade, depois da castração, é preciso checar outras possíveis causas de desequilíbrio hormonal, como por exemplo, hipotireoidismo.

A castração até os oito meses de idade, em princípio, ajuda a maioria dos cães a NÃO desenvolver hábitos que demorariam muito a serem corrigidos, mesmo depois do cão ter sido castrado. Além disso, cães castrados antes da puberdade tendem a ficar mais brincalhões e mais suaves nas suas brincadeiras, sendo inclusive melhor aceitos por outros cães, tendem a engordar muito menos depois da cirurgia e, no caso das fêmeas, a castração antes do primeiro cio é muito mais efetiva na prevenção do câncer de mama.

Já para quem quer ter um cachorro de trabalho, por exemplo para caça e pastoreio, o melhor seria esperar até que o cão tenha atingido a sua maturidade emocional (por volta dos dois anos de idade) para que os seus instintos naturais se firmem melhor.

Se o proprietário pretende incluir seus cães em competições de conformação e beleza, a castração não é uma alternativa, já que eles não são aceitos nestas condições. Para aqueles que estão preocupados com a tendência a engordar do peludo castrado, saibam que basta manter uma rotina diária de exercícios e reduzir de 10% a 20% as calorias de sua dieta.

Em compensação existem algum mitos sobre cachorros intactos que devemos esclarecer. Cães machos não ficam mais estáveis emocionalmente só porque cruzaram. O mesmo pode ser dito para as fêmeas. Muitas pessoas acreditam que suas cadelas ficaram mais calmas e responsáveis depois que tiveram a sua primeira ninhada, mas o que acontece na verdade é que a maioria das cadelas cruza no segundo ou terceiro cio (entre um ano e meio e dois anos),época em que ela está naturalmente atingindo a sua maturidade emocional.

Para ilustrar casos de sucesso com a castração dos peludos, aí vão algumas histórias reais. Uma grande amiga minha possui seis cachorros de raça grande. Três machos (um Labrador, um Rhodesian e um Bouvier de Flandres) e três fêmeas (duas Bouvier de Flandres e uma Rhodesian). Quando o machinho Bouvier começou a chegar na puberdade (com cerca de oito meses de idade),os problemas de briga entre os machos começaram a acontecer. O Leão da Rodésia, que é extremamente disciplinado e submisso dentro da sua matilha (embora ele seja o melhor cão de guarda da turma e o mais agressivo com cães estranhos que invadam seu território) passou a ser sistematicamente atacado pelo Bouvier, toda vez que o Labrador (líder da matilha) tentava evitar que o Rhodesian se aproximasse da dona. Era só o Labrador segurar o Rhodesian (gentilmente, é verdade),que o Bouvier vinha com grande agressividade e passava a mordê-lo nas coxas traseiras. Muitas brigas e pontos depois a dona finalmente desistiu de deixar que eles aprendessem a se comportar bem e levou todo mundo para castrar. Três semanas depois da cirurgia já se notava uma mudança significativa no comportamento dos machos que nunca mais brigaram e estão muito mais tranquilos. Ah! Ninguém ficou ridicularizando ninguém ou desconfiando da masculinidade do Cãopanheiro :-).

Na verdade, a mudança no comportamento indesejado deles foi tão expressiva que minha amiga resolveu que vai castrar também as fêmeas (que já estão começando a se olhar meio atravessadas),o que vai evitar que os cachorrinhos da vizinhança sejam deglutidos pelos cães da casa, pois os intrusos não conseguem se controlar quando as meninas entram no cio.

Um outro caso interessante é o um Poodle macho de seis anos que há quatro vem tentado matar o marido da dona. Fizemos um programa intenso de recondicionamento do bichinho, mas eles não conseguiram levar adiante. Finalmente, depois de dois anos a dona resolveu considerar a castração do filhotinho de diabo da tasmânia. Depois de seis meses que ele foi castrado a relação com o marido da dona melhorou muito, embora continue, digamos, delicada. Mas com as pessoas em geral ele melhorou 200%. Antes da cirurgia ele não podia nem sequer ser acariciado. Sempre rosnava e tentava morder qualquer um que tentasse chegar perto da dona. Hoje ele está tão mais relaxado e feliz que não precisa mais ficar sozinho e trancado no apartamento quando a família sai para passear. Agora ele já pode ir aos passeios e é muito bem-vindo.

Se a questão das bolas do macho for realmente um impeditivo ao procedimento, saiba que já existem próteses de silicone para colocar no lugar das “originais”. Isso mesmo, para aqueles donos que acham que dói na própria pele olhar um cachorro macho sem o saquinho já existem no mercado próteses de silicone (que não vazam como os famosos peitões de silicone usados pelas fêmeas humanas) que mantém a aparência natural dos caninos. Tudo pelos humanos, já que os cães não dão a mínima para estes conceitos estéticos.

E para finalizar, lembramos que a melhor pessoa, sempre, para tirar as suas dúvidas, deixá-lo tranquilo e confiante e para cuidar do seu animalzinho é, sem dúvida nenhuma, o seu veterinário de confiança. Portanto, converse com ele antes de tomar uma decisão quanto a castrar ou não o seu animal, quais os riscos envolvidos e qual a melhor época para fazê-lo.

Algumas fontes utilizadas como consulta:
Behavior Problems in Dogs – William E. Camplbell Dog Psychology – Leon F. Whitney, D.V.M.
The Dog’s Mind – Bruce Fogle, D.V.M., M.R.C.V.S.
Castration of Adult Male Dogs: Effects on Roaming, Aggression, Urine Marking , and Mouting – Sharon G. Hopkins, D.V.M.; Thomas A. Schubert, B.S.;Benjamin L. Hart, D.V.M., Phd.
The Ethics and responsibilities of Spaing and Neutering – John Cargill, M.A., M.B.A.,M.S.; Susan Thorpe-Vargas, M.S., Phd.
Pyometra Puts Intact Females at Risk – John Cargill, M.A., M.B.A., M.S. Dog Fancy jul/96; ago/96 Dog World nov/95

Por Claudia Pizzolatto

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3 Comentários em "Ora, bolas!"

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Cleris Nascimento
1 ano 4 meses atrás
Muito bom o artigo, muito esclarecedor. Só uma coisa me deixou desconfortável ao lê-lo: o termo “proprietário”. Este termo é mais apropriado, no meu entender, para a posse de coisas. Nossos peludos não são coisas, são membros da família e extremamente amados. As palavras “dono” ou “proprietário” não se aplicam ao relacionamento que temos com eles. Seguidamente costumo chamar meus peludos (que são 4) de filhos, e uma mãe não é dona ou proprietária de seus filhos. Portanto, acredito que a palavra “tutor” seria mais adequada nesta situação, pois, afinal, eles dependem de nós, do nosso cuidado e são muito… Read more »
Cecilia Kahanevic
3 anos 3 meses atrás

Bom dia, Claudia.
Ótimo texto! Tenho uma Rhodesian de 4 anos que não foi castrada. A castração com essa idade tem os mesmos benefícios referentes à prevenção de doenças? Ela também é muito agressiva com outros cães. Não posso negar que sempre pensei em deixa-la ter uma ninhada, mas tenho pensado mais seriamente na castração.
Obrigada,
Cecilia

BitCão
3 anos 3 meses atrás

Olá Cecilia, a castração em fêmeas sempre tem benefícios para a saúde, principalmente por eliminar os riscos de uma piometra. Se ela é agressiva, ter uma ninhada pode não ser uma boa ideia, já que o temperamento de um cão também depende da genética. Converse seriamente sobre o assunto com seu veterinário!

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