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Para cada cão idoso, uma história…

 

Bibba

Bibba

Minha melhor amiga e companheira está prestes a fazer 15 anos o que, para a raça dela, é um bocado de tempo.

Seus olhos não são tão translúcidos quanto já foram um dia.  Seu andar é cuidadoso e, às vezes, ela precisa de ajuda para se levantar. Dorme bastante, já não se interessa por antigas brincadeiras, mas nada disso importa.  Ela continua sendo a minha melhor amiga e companheira, e sei que o espírito dinâmico dela ainda está lá, apenas habita um corpo onde a idade pesa.

Se por um lado é tão difícil ver minha Bibba querida ficar velhinha, por outro é uma grande felicidade passar por essa fase junto dela.  É triste vê-la cair sentada do nada, apenas porque as suas pernas não aguentam mais ficar de pé por muito tempo.  Ou acompanhar suas micro convulsões e não poder fazer nada, além de esperar passar e estar ao seu lado, amparando e dando carinho até que ela se sinta melhor.  Nem é nada divertido ter que levá-la para fazer exames para descobrir se o tumor do fígado está avançando ou permanece adormecido.

Mas essas pequenas chateações fazem parte da vida, e não são nada se comparadas às tantas vezes que corremos pela praia, aos inúmeros ataques de lambidas inesperadas no meio da noite, ou mesmo agora, quando ela já está velhinha, ao prazer de vê-la entrar na piscina e abanar o rabo debaixo d’água.  Ela ainda adora dar seus passeios diários, comer besteiras (agora pode, né?),ser escovada, “receber” os amigos e as visitas.

Nenhum dos inconvenientes que aparecem com a idade avançada fariam com que eu desistisse da minha menina. Doá-la, abandoná-la, deixá-la do lado de fora da casa?  Totalmente fora de cogitação!  Vamos curtir todos os dias em que ela estiver bem.  Vou cobri-la de beijos, fazer todas as suas vontades e quebrar todas as regras da obediência, que tanto insisti durante a sua juventude.  Vamos tirar muitas fotos, fazer pequenos filmes com o celular, vou cheirá-la mais do que nunca, para guardar também seu cheiro em meu coração. Agora é só festa na floresta!!!!!

A velhice dos meus bichos me deu uma pista do que pretendo fazer daqui para frente: adotar cachorros idosos. Assim vamos eu e eles discutindo nossas mazelas, as nossas dores nas “juntas”, contando as nossas histórias.  Vamos caminhar devagarzinho e deitar no sol da manhã para esquentar os ossos.  Vamos dar muito amor e fazer companhia um para o outro, sem pressa, sem agitação.  Nada melhor!

E quando eles se vão?  Ah, quando eles se vão, nós torcemos para que seja sem sofrimento, sem dor, e que nós possamos estar perto deles.  Fica uma saudade imensa, chega mesmo a doer, mas também uma sensação feliz ao lembrar de todos os momentos maravilhosos.

 

 

 

Cau

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Negralegria

Dois corações acima do focinho — assim posso definir os olhos da minha Cau, que conquistava tudo e a todos com sua doçura. Uma velhinha que colocava no chinelo os dois irmãos mais novos, com a considerável diferença de sete anos de idade. Minha inseparável companheira nos lugares mais malucos desse país. Conhecia como a palma das patas toda a Serra da Mantiqueira:  escalou infindáveis vezes a Pedra do Baú, correu atrás de esquilos em Bento Gonçalves, matou iguanas em Santarém, no Pará. Quando moramos lá ela já era quase uma senhora – a idade perfeita, aquela em que o cachorro sabe o que você quer apenas por meio de uma troca de olhares, uma frase curta.  Quando nos aproximávamos da fiscalização, na área restrita, onde a entrada de cachorros era proibida, bastava eu dizer “chão” para ela se esconder no fundo do jipe. Sabia que esse era o passaporte para nadar no rio Solimões, transparente e cheio de peixes, esperando que eu me distraísse para sair correndo atrás de alguma galinha.

A Cau encantava a todos por sua meiguice, sua obediência nata (pois eu pouco ensinei) e por seus dentes proeminentes. Nem os pelos brancos, nem o câncer que a acompanhou ao longo de dois anos, nem a idade alteraram o seu humor, a sua docilidade. Ficou, sim, mais “safa”.  Às vezes se recusava a sair para caminhar com o pai e os irmãos caçulas– mas só quando eu estava ainda na cama. Ela deitava ao meu lado, então, de barriga para cima e ficávamos, as duas, contando estrelas que desenhávamos em sonho no teto.

Ela foi, para mim, a maior prova de que a idade de um cachorro, muitas vezes, está mais na cabeça da gente do que na deles.  Quando ela tinha 13 anos passamos a Páscoa em Gonçalves, no Sul de Minas, e ela quase rolou cachoeira abaixo ao correr e latir para as vacas que estavam do outro lado da margem.  Chorando e com as pernas bambas, imaginando a tragédia, eu a vi sair da água se chacoalhando, abanando o rabo e ainda olhando para trás antes de dar, despeitada, mais um latido, uma espécie de “humf!” para as candidatas a bife.

A Cau me apresentou a grande delícia de se ter um cachorro mais velho – eles compactuam com as nossas manias, comemoram as suas alegrias, nos conhecem como ninguém. Ela me ensinou, também, que o tempo passa muito, mas muito rápido para eles. E que a saudade que  deixam quando partem é puro amor.

 

 

Matilda

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Velhice é algo que a gente só pensa, geralmente, quando algum sinal chega… No caso dos bichos, como tudo é muito mais rápido, eles ficam maduros e a gente só percebe depois de um tempo.

Matilda era uma boxer muito serelepe e ativa, fez agility até os 4 anos e passou a vida pegando frisbee no ar. Aos 7 teve um câncer no pulmão que venceu com louvor. E aos 11 sucumbiu a um fígado doente que não deu trégua ao seu corpinho esbelto.

Com tudo isso, aprendemos que vida saudável ajuda a enfrentar doenças mais graves, suplementação é super importante também para os bichos e que, quando as coisas ficam mais críticas, existem produtos que vão dar mais qualidade de vida ao bicho.

Matilda, a nossa filha querida, nos deu um caminhão de felicidade e nos ensinou a ser melhor. Ela faz falta, mas tenho certeza que viveu feliz, com qualidade, e que onde estiver estará correndo e pulando com outros amigos, como sempre fez!

 

 

Guará

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Em janeiro de 2011 a região serrana do Rio de Janeiro foi violentamente atingida por chuvas e desabamento de morros. Como normalmente acontece nestas catástrofes, animais também são vítimas e encontram enormes dificuldades para o atendimento já que a prioridade é o atendimento para os humanos.

Tereza minha esposa e eu, temos um “fraco” por adotar animais especiais. Cegos, trípedes (já foram cinco),enfim aqueles que ninguém quer adotar. E os velhos não é? Porque ninguém pensa na grande sacanagem que é jogar um animal idoso ou doente nas ruas. É cruel! Dentre os vários animais abrigados em Teresópolis, havia um que chamavam de “Velho”. Pelagem grande e desgrenhada, apático, e um olhar de que sabemos, perdia o brilho e vigor.

Com a ajuda de amigos e voluntários, trouxemos o “Velho” para casa e no dia seguinte começou a rotina de quando se adota um animal: veterinário, exames básicos, cuidados nos poucos e superficiais ferimentos, vermífugo e muita observação. Quando se adota um animal “sem histórico” ele precisa de tempo. Novo ambiente, novas pessoas, novos companheiros de pelo, tudo é estranho e desconhecido. E é sempre difícil responder a pergunta básica nos atendimentos: qual a idade dele? Nunca se sabe, apenas se calcula. No caso dele algo entre 6 e 9 anos era a estimativa. Mesmo com a experiência em adoção, há de se ter calma para “ler” o novo integrante. O primeiro cuidado foi o de dar um nome e, por sua aparência lembrando um lobo por suas pernas longas e pelagem tricolor, escolhemos o nome de Guará, como o lobo nacional. As duas primeiras semanas foram bem difíceis, e chegamos a pensar em insucesso. Não aceitava a alimentação, estava bem fraco e com um pouco de anemia, mas foi se aprumando. Aí vieram os sinais dos traumas. No primeiro dia de chuva com raios e trovões, o Guará ficou apavorado. Entrava embaixo dos móveis, invadia armários, um terror, parecia o Marley do livro. O trauma era tão grande que quando passeávamos pelas ruas, sempre o deixava próximo as casas, pois se passasse um veículo com motor diesel ele se encolhia todo. Precisava ser firme na guia pois ele tentava correr em fuga.

Mas … tudo passa e o Guará se adaptou a nova casa e aos amigos.

De uma paciência nipônica NUNCA encrencou com nenhum outro animal da matilha, nem mesmo quando chegou a Laurinha, uma filhotinha de pouco menos de 3 meses (trípede) que o acordava sempre lambendo seu focinho. E o olhar calmo, tranquilo, carinhoso não tinha nada a ver com o olhar desesperançado do “Velho” do abrigo em Teresópolis.

Por sua história de superação acabou cativando muita gente pelas redes sociais que acompanhavam sua caminhada em nossa casa. Mas em 2013 em meados de junho ele teve um AVC e passou a ter uma dificuldade em caminhar. Sessões de acupuntura ajudaram bastante, e ele passou a caminhar quase normalmente. Ele era tão “bom” que em nenhum momento, mesmo durante a dificuldade do caminhar, deixou de fazer suas necessidades no fundo do quintal.  Passou a usar guias especiais para podermos levantá-lo sem dificuldades pois para ele era difícil o levantar. A adoção de um animal idoso traz essas dificuldades mesmo. É preciso paciência, calma e saber lidar com estas dificuldades. Nunca um animal idoso vai apresentar saúde perfeita. Mesmo porque doença(s) é o principal motivo por terem sido abandonados. A dificuldade de alimentação foi vencida com a regra básica de começar com ração e adição de carne ou comida pastosa, depois ração e, finalmente, para a Alimentação Natural que foi melhor aceita e que ajudou em sua saúde. Mas aí veio outra dificuldade, apareceu uma tosse insistente seca e constante.

Na segunda semana de abril, uma infecção urinária e um novo AVC que acabou com sua resistência e sua disposição em lutar. Depois de dois dias sem aceitar nenhuma alimentação, decidimos junto com o veterinário pela eutanásia.  Além de ser o animal mais doce, tranquilo e sossegado que tivemos, foi também o de maior tranquilidade na passagem. Ele se entregou assim que foi colocado o cateter e, mesmo antes da anestesia ser dada completamente, ele se foi.  Sem um tremor, sem uma respiração diferente, dormiu seu último sono.

Não tenho mais a menor certeza de quantos animais passaram por nós. Mas cada um deles leva um pedaço de nós e deixa um pedaço dele conosco. A passagem do Guará que não tinha perfil nas redes sociais, pela sua beleza, sutilidade e amorosidade gerou mais de 300 comentários de solidariedade, de amizade e de puro sentimento de perda. Gente que acompanhou sua história e, temos certeza, muitos choraram junto conosco sua passagem.

Foram 3 anos só, mas muito intensos. Pudemos prover a ele o carinho, atenção, cuidados, e amor que ele pode ou não ter recebido antes do desabamento. Mas sobretudo o que não faltou a ele

A adoção de um animal adulto e principalmente idoso, nos permite aprender a doar amor e tornar esse final de vida deles com dignidade. Custa pouco e, ao final da história, quem ganha mais somos nós. A parcela de companheirismo, fidelidade incondicional que recebemos é imensurável.

Obrigado Guará! Corra livre da dor, do descaso, do abandono pois temos certeza de que agora está em uma ravina verde, cheirosa, e com muitos amigos peludos que foram para lá entes de você!

Tereza Cristina Salvetti e Fowler T. Braga Filho

 

Terena

Terena

Está é a Terena, nossa poodle que está com 17 anos! Ela tem porte médio e sempre foi muito esbelta e elegante! Agora tem uma artrose, pressão alta e toma sua condroitina… Mas ainda anda, passeia, come muito bem e nos segue pela casa! Nossa querida Terena veio de Votuporanga – São Paulo, e so na melhor idade conheceu o mar e a vida no Rio de Janeiro! Ela é e sempre será nossa peluda da vida toda!!

Ana Holgado

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14 Comentários em "Para cada cão idoso, uma história…"

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Lindas histórias. Lembro da perda de outros dois que já tive; Vivi, era doentia, foi pega pela carrocinha, e qdo resgatei, n tive como revacinar, com poucos meses morreu. Meu Luck morreu com 9 anos, depois de uma tentativa de tirar “tártaro”, passou mal, depois dai veio outros problemas e o diagnóstico de “hepatite infecciosa”, vindo a falecer na clinica depois de 3 dias internado. Agora estou com minha NINA, já com 9 anos, ficando mais lenta, pelo branqueando, olhinhos ficando cinza, mas ainda bem ativa, não sei até quando.

1 ano 10 meses atrás

curta muito a sua Nina, Helena!!

Maria do Carmo B.A.Tirado
2 anos 7 meses atrás

Ler essas histórias só reforçam o quanto é importante amarmos incondicionalmente os nossos “velhinhos”, que para sempre deixarão em nossos peitos, as saudades, para àqueles que já partiram e a alegria daqueles que ainda nutrem essa companhia tão importante que é dos cães idosos.Tenho 2 lindas de 14 anos e meio, que só me dão alegria.E a mãe delas, que morreu com 17 anos, lembro carinhosamente da querida Meimei.
abraços a todos!
Carmo

Ana Soares
2 anos 7 meses atrás

Claudia, por essas e outras é que sempre te admirei. Saudades da Biba, um pote de alegria e inocencia.
Beijao.

3 anos 8 meses atrás

tenho pitbul idosa,esta surda tem 16 anos não esta conseguindo caminha,esta febre,que faço

BitCão
3 anos 8 meses atrás

Olá Iolanda, leve-a o mais rápido possível para uma consulta com o seu veterinário! Ele é a pessoa mais indicada para avaliar a saúde da sua idosa!

Teresa Cristina Piccinini de Mello
4 anos 4 meses atrás
Chorei,, chorei de emoção ao ler esses depoimentos. Tenho um lindo waimaraner que fará 8 anos no dia 3 de agosto/14, de nome Scooby Doo, uma linda boxer de 7 anos chamada Hanna e 2 srd’s adotados nas ruas, creio que com 6 e 5 anos, chamados Anja e Schummy (homenagem ao Schumacher, outro amante dos cães). Também tenho a Bella e a Kiki, 2 gatinhas persas, mãe e filha, de 16 e 15 anos. Lindas, sendo que uma delas é renal… Amo esses meus filhos anjos muito, muito, muito e sei que morrerei muito com eles, quando se forem,… Read more »
SILVIA VEIGA
4 anos 6 meses atrás

Ai que saudades e quanta dor ao lembrar do meu velhinho, Young, um York achado perdido na estrada, que tantas alegrias nos deu em 10 anos de companheirismo, Meu adorado amiguinho!!!!!

Ana Lucia
4 anos 7 meses atrás

Bibba, Cau, Matilda e Guará! Amei conhecer suas histórias! Me emocionei e senti o que seus donos transcreveram com tão belas palavras!! Minha Terena, a quinta homenageada neste emocionante post, também está passando por todas as dificuldades descritas. Mas a cada queda, cada fraldinha trocada e cada comprimido engolido, agradeço a oportunidade de estar com ela e poder estar dando esse cuidado! São 17 anos em que pude ter a companhia de uma filhote, uma adolescente, uma adulta e, agora, uma velhinha sensacional; todas na minha Terena!

Deize
4 anos 7 meses atrás

Lindos e emocionantes depoimentos.
Meu velhinho Jimmy, já nos seus 14 anos e meio, segue firme e as lambidas de satisfação e a abertura das patas para o carinho no barrigão, continuam iguais apesar de já quase não conseguir caminhar (exceto para ir fazer suas necessidades e beber água uma vez ou outra),os olhos estarem opacos e o olfato prejudicado.
Mas, vamos dando o cuidado necessário e todo o amor que temos. E ele retribui.

maria beatriz campos
4 anos 7 meses atrás

Voce é o maximo Claudia. Voce sempre foi carinhosa e mae de todos os teus animais amigos e companheiros como tambem dos que passaram por tua vida como o Nick seu aluno. A Bibba, assim como o Bife nao podiam ter tido uma mae melhor. Beijo Grande.

4 anos 8 meses atrás

Comovente e maravilhoso!
Tenho 03 cadelinhas e um cão basset mestiço. Dá até um frio na espinha em pensar que a vida deles é tão curta!
Essas histórias nos elevam e nos mostram o quanto essas criaturinhas peludas são importantes para nós e deixam lindas lembranças!
Parabéns aos donos que os souberam criar com tanto amor!
Que Deus abençoe a todos esses cãezinhos no céu!

Maria do Crmo
4 anos 8 meses atrás

Conheci Guará e sempre lembrarei dele com carinho, tenho certeza que ele está em um lugar muito especial e feliz, pela grande oportunidade evolutiva que teve, com tutores tão amorosos e dedicados.Ele realmente era uma graça!!!!

4 anos 8 meses atrás

Não conheci pessoalmente esse herói, mas chorei a sua passagem. Não pela passagem em si, mas por toda a história dele. Chorei a falta que ele vai fazer aos seus cuidadores que lhe deram tanto amor e dignidade. Chorei porque choro sempre que sei que um dos nossos se foi.
De qualquer forma, é como o seu humano disse. hoje ele está no paraíso para onde vão todas essas criaturinhas maravilhosas que tem aqui a missão de nos trazer lições de vida.
Então seja feliz, Guará, e agora para sempre!

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