Voltar para os artigos

Se os peludos pudessem falar…

Cachorro que fala

Provavelmente você já se perguntou o que seu cão está pensando, ou o que exatamente ele gostaria de dizer quando lança aquele olhar adorável na sua direção.

A verdade é que de todos os animais de estimação com quem dividimos a nossa vida, parece que os cachorros são os que sempre estão mais intetressados em se comunicar conosco. É como se estivessem falando: Vamos brincar? Quer passear comigo? O que vamos fazer agora? Me dá um pedaço disso daí? Você está triste, quer um carinho?

Já imaginou que delícia poder falar e ser respondido por nossos amigos peludos? Pois saiba que já existe um trabalho maravilhoso que permite que cães treinados consigam se comunicar com seus treinadores e com outras pessoas para ajudar aqueles que precisam de ajuda, ou para dar informações mais precisas sobre o trabalho que estão executando (no caso de cães de serviço). E nossos cães têm muito a dizer!

Como surgiu a ideia de dar voz aos cães?

A Dra Melody Jackson tornou-se PhD em ciência da computação da Georgia Tech em 1998 e treinou cães de assistência por quase 20 anos. Agora ela está colocando suas duas paixões juntas. Professora associada do Instituto de Tecnologia da Geórgia – Brain Lab  (centro de pesquisa especializado e dedicado à interface cérebro-computador), ela desenvolveu uma tecnologia que está dando aos cães uma voz, uma habilidade que diz ser crucial para busca e salvamento, detecção de bombas e terapia de cães. A equipe de pesquisadores da Dra Melody, que inclui parceiros de peso como o professor Thad Starner (líder técnico do Google Glass e um dos precursores no campo da tecnologia que se pode vestir) e o cientista pesquisador de design têxtil Clint Zeagler, criou coletes de alta tecnologia para cães em um projeto chamado FIDO, que significa em inglês “Facilitating Interactions for Dogs with Occupations”, algo como Facilitando Interações para Cães com Ocupações.

Mas afinal, como funciona esse colete que permite que os cachorros falem?

O colete FIDO é uma peça de equipamento especialmente projetada que se assemelha a um colete típico de cães de serviço: uma veste de tecido justo nos ombros, nas costas e nas laterais do cão, e correias que passam em volta do peito e ao redor do abdômen. O colete contém uma unidade de sensor informatizado – um computador – entre as omoplatas do cão, e também vários sensores nas laterais, cada um com um uso ou propósito específico. Brinquedos acopláveis ​​ou outros acessórios podem ser anexados ao colete para o cão ter mais facilidade em acionar os sensores através de uma mordida, puxão ou uma cutucada de nariz. Cada sensor preso ao colete tem uma mensagem de voz gravada associada ou função, e os cachorros aprendem quais sensores acionar de acordo com a situação.

A equipe também criou uma roupa háptica (sensível ao toque e que responde de forma tátil de volta – como as telas de celulares que você pressiona e sente uma vibração ou tem a sensação de que está apertando uma tecla de verdade) que permite que os usuários se comuniquem silenciosamente com cães que trabalham, e está estudando telas sensíveis ao toque para cães acionarem sozinhos.

Vídeo que mostra o colete “em ação”!
(selecione a legenda em português para trocar a língua)

E como os cachorros sabem que sensor ativar?

Os coletes foram testados inicialmente pelo Border Collie de 8 anos da Dra Melody Jackson, Sky. “Ele realmente nos ajudou a projetar muitos desses sensores, mostrando-nos o que funciona e o que não funciona”, diz ela. “Então, ele é uma espécie de nossa primeira linha de testes antes de sairmos para o resto do mundo. Ele é uma parte muito crítica da nossa equipe de design.” Depois de Sky, a equipe já criou e testou nove sensores diferentes que foram testados com outros oito cães.

Mais e mais pesquisas estão sendo feitas para ver se há outras áreas no colete que podem ser equipadas com sensores – é importante que o cão possa facilmente alcançar qualquer nova área que seja usada.

Os cães começam sendo treinados com brinquedos, identificando entre um Frisbee ou uma bola, e acionando um sensor que diz ao treinador qual é qual. Jackson explica que este é um exemplo de uma “tarefa de discriminação” que pode ser traduzida para tarefas mais importantes, como a detecção de bombas, em que o cão diria ao seu companheiro humano que tipo de explosivo ele farejou. A Dra Jackson quer colocar seus coletes à prova com caninos em patrulha com soldados no campo de batalha.
“Um cão farejador de bombas, hoje em dia, praticamente dá um alerta que diz: ‘Ei, encontrei um explosivo.’ Mas esse cão sabe qual explosivo está lá… Eles sabem se é algo estável como o C4 ou algo instável e perigoso como o TATP que precisa ser tratado com cuidado “, diz Jackson. O problema é que “eles não têm como dizer isso ao seu condutor”.

Os cães são seres fantásticos: em um estudo de 2014, Jackson testou oito cães que usavam coletes com cinco sensores diferentes. O mais demorado que um cão levou para aprender o sistema foi 30 minutos – o mais rápido foi 27 segundos. Ela acredita que qualquer cão treinável seria capaz de captar a tecnologia muito rapidamente.

Quais as possibilidades de aplicação do colete FIDO no peludo?

Além de aplicações para cães farejadores de bombas e cães de resgate o FIDO também pode ajudar pessoas com deficiência.

Segundo a visão da equipe de pesquisa, o colete FIDO é para qualquer cão que trabalha em parceria com uma pessoa e que precisa compartilhar informações com o condutor à distância, fazer contato com pessoas que estão em outro local, trabalhe em condições perigosas ou forneça feedback sobre o meio ambiente. A equipe FIDO especificamente menciona cães de serviço, cães de assistência, cães de busca e resgate, cães de detecção de bombas, cães de bombeiros e cães de serviço. O colete foi projetado para a metade canina da parceria, e a interface humana ainda não foi completamente acertada. Pode ser um aplicativo de smartphone, um sinal sonoro ou tátil, o Google Glass ou um controle remoto independente.

A Dra Melody Jackson e sua equipe de pesquisa também desenvolveram um colete de alerta médico que permite que um cão, ao encontrar uma pessoa perdida ou aprisionada sob escombros, ative um sensor que vai falar uma frase, deixando que essa pessoa saiba que a ajuda está a caminho. Esta tarefa pode ser fundamental durante um terremoto ou resgate em desastres, onde uma pessoa presa ou ferida precisa de ajuda. Este colete está sendo testado por uma equipe de cães de resgate de verdade na Califórnia, diz Jackson.

Uma outra frente de trabalho é o desenvolvimento de um colete que permita ao condutor rastrear o cão que o está usando. Quando o cão encontra seu alvo, ativa um sensor que envia coordenadas de GPS de volta ao condutor. O colete do cão diz à pessoa em perigo que a ajuda está a caminho, e não precisa sair do lado da vítima.

Imagine que você tem uma condição de saúde e começa a passar mal. Seu cachorro de serviço puxa um sensor que liga direto para o serviço de emergência com sua localização GPS e, na sequência, manda uma mensagem para um familiar dizendo algo como: “estamos no restaurante XTudo da rua América e minha dona está tendo uma crise de hipoglicemia”. Seu marido, esposa, mãe ou um amigo saberia imediatamente que o SAMU está a caminho e tomariam as medidas necessárias. A tecnologia FIDO também permite que os cães acionem um sensor no colete que reproduz uma gravação como “meu proprietário precisa de ajuda, por favor, siga-me”, o que poderia salvar a vida de alguém com epilepsia que está longe de outras pessoas, por exemplo.

O colete pode ser útil para uma pessoa que não pode falar ou uma pessoa com deficiência auditiva. O cão poderia falar com outras pessoas para pedir ajuda com a frase “desculpe, meu dono precisa de sua atenção”.

Os cães de Jackson também são treinados para discriminar entre uma campainha ou um alarme de incêndio, por exemplo, e para ativar o sensor apropriado em seu colete para enviar uma mensagem para o celular do dono via Bluetooth. “Um cachorro de serviço para deficientes auditivos, hoje em dia, alertam para coisas como a campainha tocando ou o bebê chorando ou alguém chamando seu nome”, diz Jackson. “O que eles fazem neste caso é cutucar o dono e levá-lo à fonte do som. Mas, se for a sirene de um tornado se aproximando? As sirenes soam ao longe, é um som que está fora do ambiente. O cachorro não tem como levar o dono até a fonte do som”.

E todos nós vamos poder ter um colete FIDO para nossos peludos?

Até o momento, o colete vem sendo desenvolvido para o uso com cães de auxílio a deficientes, de serviço militar, policial, resgate e bombeiros, mas nada impede que um dia ele venha a ter aplicações para cães de companhia.

O colete FIDO ainda está sendo testado, pesquisado, projetado e refinado. Ainda não está pronto para o mercado e a equipe de pesquisa ainda não tem uma data de lançamento projetada. A Dra. Melody Jackson diz que eles poderiam facilmente passar 10 anos criando ideias relacionadas ao FIDO, mas ela espera que eles estejam prontos por volta de 2020.

Isso significa que é apenas uma questão de tempo até que a comunicação com seu amigo canino seja levada a um novo nível e, quem sabe,  talvez um dia você venha a saber o que o seu cachorro pensa sobre o gato do vizinho,  se ele prefere um bife suculento ou frango para o jantar 🙂

Claudia Pizzolatto

Fontes de consulta: Georgia Tech, CNN, BusinessInsider, Anythingpawssible, Healthy Pets

Deixe um comentário 1 comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.