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Ter um peludo é uma decisão familiar

Ter um cachorro é uma decisão familiar

Nem todas crianças têm a sorte grande de nascer em um lar com animais de estimação. Mas, em muitos casos, basta crescerem um pouquinho e já disparam: ‘mãnhê, paiê, podemos ter um cãozinho? Por favorrrrr!’.

Pode parecer simples e banal ter um animalzinho. Basta comprar, adotar ou ganhar um, e tudo será maravilhoso, mas a verdade está bem longe disso. Cães podem viver quase 20 anos, gatos até mais, e até lá vão fazer xixi no tapete, comer o sofá, irritar os vizinhos com a latição fora de hora e fazer com que você mude roteiros de férias para que ele possa ir junto.

Você vai encarar tudo isso com bom humor se realmente amar os peludos, mas nem sempre é o que acontece. Muitos pais cedem aos apelos dos filhos e aceitam um cão ou gato em casa embora eles mesmos não sejam fãs de animais. A probabilidade maior é que os pais se desesperem e acabem dando o bicho. Um cão, por exemplo, jamais terá saúde mental se sua função for brincar com as crianças apenas uma vez por dia, por 20 minutos, durante o intervalo da aula de inglês e de ginástica. As chances de problemas comportamentais e frustração com este animal são grandes. Eles tendem a ficar muito agitados na presença das crianças, alguns até agressivos. Estes cães normalmente brincam de pular, puxar roupa, morder as mãos e os pés das crianças e logo se tornam tão “chatos” que ficam mais e mais tempo presos numa área e, por consequência, mais e mais ansiosos e mal-educados.

Além disso, as crianças costumam prometer que vão ajudar a limpar as sujeiras pela casa, que vão escovar, dar banho e alimentar o animal, mas esta ajuda (quando acontece) acaba logo, e no primeiro final de semana que aparecer um programa legal para os pequenos humanos, lá vai sobrar o cachorro para a mãe e para o pai. Será que vale a pena mesmo este estresse todo, só para satisfazer uma vontade dos filhos? Não será melhor explicar com calma que a casa pertence a todos e que se papai e mamãe não curtem cachorro é melhor não ter um?

Isso vale quando um dos cônjuges também não gosta de cachorros. Claro que desta vez a gente não vai ter o problema com a falta de responsabilidade e de comprometimento que os pequenos humanos às vezes têm, mas se você quer um bichinho e seu esposo/esposa “detesta” cachorro, pode esperar que mais dia, menos dia, vai vir bomba. Basta aparecer uma super viagem no fim de semana e vocês não terem onde deixar o cachorro. Ou o dia que ele/ela chegar cansado do trabalho e encontrar o seu sapato novinho em folha picadinho no chão da sala. Sair para levar o cachorro para passear também pode se tornar um drama. Você querendo a companhia dele/dela, e o outro danado da vida porque prefere ficar vendo televisão. Afinal, ele/ela, nunca quis ter cachorro…Vai dizer que ele/ela está errado?

Resumindo: opte por ter um peludo porque você e toda a família querem a companhia dele e tem tempo e estrutura para que este bichinho também possa desfrutar da sua companhia e de outras pessoas, atendendo também as necessidades dele e não só as suas. Tenha um cachorro porque todos os que vivem com você gostam do bicho (mesmo que não TANTO quanto você),com seus prós e contras, e estão dispostos a abrir mão de uma série de facilidades que eles possuem hoje e deixarão de desfrutar quando o peludo chegar.

Infelizmente o número de cachorros com problemas comportamentais graves, como ansiedade de separação (cães que destroem toda a casa, ou o jardim, que latem e uivam sem parar incomodando os vizinhos, que são arredios ou excessivamente agitados),automutilação (cães que se mordem, arrancam pelos ou se lambem compulsivamente),ou com dificuldades para adquirir hábitos de higiene (cocô e xixi fora do lugar) é muito maior do que as pessoas pensam, e quase sempre estes e outros problemas estão relacionados com o número de horas muito grande que estes cachorros ficam sozinhos durante o dia.

Então, se você quer ter um bichinho de estimação, mas passa muitas horas por dia fora de casa, e não pode contratar uma pessoa para vir todos os dias à sua casa e fazer companhia para este bichinho (uma empregada, por exemplo),por favor, reconsidere o pedido das crianças. Para o seu bem e para o bem dele.

O fato é que não existe cachorro perfeito. Não existe cachorro mudo. Não existe cachorro sem personalidade. Não existe filhote que vá passar o dia inteiro sozinho e ainda assim vai aprender onde fica o jornal, onde ele pode ou não pode dormir, o que ele pode ou não pode roer. Principalmente: não existe filhote emocionalmente ajustado e feliz que passe o dia inteiro trancado na área ou no banheiro de empregada, sem interagir com pessoas.

Se a família passa o dia inteiro fora e quer ter um cachorro procure seguir algumas dicas:

  • Só pegue o filhote quando você for tirar férias. Assim você vai ter, pelo menos, 30 dias para ensinar o básico do básico e para estimular o seu filhote, socializando-o e estabelecendo um padrão de confiança com os seres humanos.
  • Arme um esquema com a sua empregada ou diarista. Talvez ela possa vir um dia a mais na semana e fazer companhia para o novo membro da família. Converse bastante com ela e certifique-se de que ela gosta de cães e que não se importa de brincar, passear e limpar as caquinhas dele.
  • Converse previamente com todos os membros da sua família e se for o caso deixe claro o que você espera de cada um com relação às responsabilidades e obrigações para com o filhote. Deixem pré-estabelecido o que é a tarefa de cada um.
  • Cachorro prende muito. Cachorro precisa no mínimo de 20 minutos de atenção todos os dias para se manter obediente e educado (para ser feliz ele vai precisar um pouquinho mais do que isso). Não se esqueça que cachorro vive, em média, de 10 a 20 anos e nem sempre ele será obediente, saudável ou jovem e bonito. Você sempre pode desistir do cachorro, mesmo depois dele já ter morado um bom tempo com vocês, mas o custo emocional desta perda é grande, e é muito mais fácil desistir do bichinho enquanto ele ainda está na vitrine da petshop ou no colo do criador.

Cláudia Pizzolatto

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