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Um gatinho me escolheu

Cosme

Gatos nunca fizeram parte da minha história até passar uns dias na casa da minha amiga Cláudia Pizzolatto. Fã dos bigodudos – ela tem cinco em casa e mais três na BitCão – nunca economizou elogios aos felinos e sempre me incentivou. Mas, com três cães em casa, sem emprego fixo e recém-chegada à uma nova cidade, deixava para depois.

 

Até que um dia surgiu uma mensagem num grupo de amigos no Whatsapp. Arlindo (hoje Cosme) havia apanhado um bocado e foi socorrido por uma alma do bem. Depois de dez dias internado, era hora de ir embora da clínica, mas para onde? Tinha que tomar remédio na hora certa, não podia andar até a fratura na pata solidificar e blá blá blá. Ué, trabalho em casa, posso cuidar do bicho até que ele consiga um lar definitivo, pensei. Naquele momento eu queria ser solidária e resolver a história do bicho para que ele não voltasse para a rua. Mas claro que eu já sabia, lá no fundo, que esse gato seria meu – todos os animais que ajudei temporariamente ficaram para sempre. E eu precisava de um gato!

 

Criei todo um discurso para convencer meu marido. Louco por animais. Curto e grosso, disse que ia adorar, mas trabalhando o dia todo não poderia fazer a adaptação com os cachorros. Decidida que eu estava, nem liguei. Fui à clínica conhecer o então Arlindo, e foi amor à primeira vista por aquele menino mirradinho, magro, manco, pelo caindo e super falante. Ele, porém, não me deu a mínima. Saiu da caixinha de transporte e foi direto se esfregar na veterinária e na moça que o havia socorrido. Eu adoro um desafio, e decidi que ia ganhar a confiança e o amor daquele gato.

 

Após dois dias ele teve alta e lá estava eu para trazer o moleque para casa. Os cães ficaram doidos, claro. Sempre que cruzaram com um gato na rua, correram atrás. Instalei meu novo amigo no quarto de hóspedes, claro, agradecendo ao universo por não ter vizinhos e por adorar uma lata de tinta. Meu trio canino não parava de latir e arranhar a porta, e a situação piorava quando eu estava lá dentro. Cosme, ex-Arlindo, não saia da caixa de transporte espontaneamente, mas não reclamava quando eu o colocava no colo. Falei que ia conquistar o gato, né? Então. Logo percebi que o ponto fraco dele era (e é) comida. Grãozinho de ração aqui e acolá e ele passou a sair da caixa quando eu abria a porta, mas não brincava e nem interagia. Só queria cafuné, e eu só queria que a Cláudia estivesse comigo. Juro, no primeiro dia achava que nada daria certo e que eu teria de passar pelo menos um mês adaptando cães e gato.

 

À noite, com a presença do meu marido, começamos as apresentações, um a um na guia. Minha cachorra mais velha, 9 anos, ignorou o Cosme. Entrou no quarto, cheirou e foi embora. Os outros dois, Zé e Toast, deram mais trabalho. Era o gato fazendo Fuuuuuuu, todo arrepiado, era cachorro latindo e eu respirando fundo, já com a certeza de que tinha me precipitado. Colocamos uma grade na porta para que os cães pudessem ter contato com o gato e arranhar menos a porta sem riscos, mas a situação estava longe de ser confortável. Por telefone, a Cláudia me acalmava e garantia que tudo ia se encaixar, como realmente aconteceu.

 

Três dias após a chegada do Cosme, estávamos jantando quando ele apareceu na cozinha. Um susto: primeiro porque o gato estava com a perna quebrada, como pulou a grade? Segundo porque os cães estavam soltos e conosco. Mais uma vez foi Fuuuu pra lá, auauauuu e grrrr para cá, mas o Cosme estava decidido que já era parte da família e que queria, sim, participar da nossa vida como os irmãos de quatro patas – tenho certeza que foi essa vontade dele que fez toda a diferença.

 

Ainda assim, não deixámos a turma sem supervisão, e Cosme continuava protegido por uma grade, mas com direito a dois quartos só para ele. Mas ele queria proximidade: pulava e deitava sobre a mesa onde eu trabalhava, ou no meu colo. Mais uma dica da Cláudia: nessas horas os cães ganhavam Kongs recheados para se entreter e associar o gato a coisas boas. Foi uma maravilha!

 

Menos de uma semana após sua chegada, Cosme não só transitava com tranquilidade pela casa, como havia ganho uma mãe postiça. Cada vez que miava – e podemos dizer que ele fala pelos cotovelos – a Toast, nossa VL gigante, corria para ver o que estava acontecendo (ela, aliás, cuida e brinca o tempo todo com ele).

 

Cosme está conosco há um mês e parece que viveu aqui a vida toda. Apesar do muro alto, colocamos telas em 45º para que ele possa curtir o jardim com seus irmãos de quatro patas, e todos os dias rola um pega-pega. Passeia de carro e está aprendendo a ir à rua com coleira peitoral. Continua muito falante, o que é sempre divertido e útil: vem correndo quando é chamado ou mia respondendo onde está. Nossa rotina está ainda mais saudável: temos que deitar pelo menos uma hora mais cedo, pois Cosme e Toast brincam de esconde-esconde na cama. Depois, ele encosta no Zé e dorme. Quase todos os dias ganho café na cama: ele madruga e morde o pé do meu marido.

 

Ainda me emociono ao vê-lo brincar, caçar, correr, pedir carinho e comida o tempo todo, ou quando ele se aninha entre os cães para dormir. Imagino como foi a vida desse bichinho nas ruas passando fome, sofrendo maus-tratos a ponto de quebrar a pata, e quase me esqueço de contar! O prognóstico inicial era de que ele teria de pôr pinos, passar mais um tempão imobilizado e coisa e tal, mas parece que as doses cavalares de amor cicatrizaram todos os machucados – ele nem manca mais. É o melhor gato do mundo, o meu.

 

Regina Ramoska

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4 Comentários em "Um gatinho me escolheu"

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Carla Goulart
8 meses 10 dias atrás

Fiquei emocionada com essa história!!! Também sou fã dos felinos, tenho 4 em casa e já salvei muitos outros. São as criaturas mais amáveis do universo. Só não gosta de gatos quem nunca teve um! Garanto!!!

8 meses 13 dias atrás

que lindoooooooooo. adorei sua história

Ana Carolina
8 meses 13 dias atrás

Quanto amor! Fico tão feliz quando os peludos têm um final feliz! Sorte a dele tê-la encontrado. E sorte a sua ter encontrado o Cosme! Felicidade para a família toda!!!

maria ines de sillos
8 meses 13 dias atrás

Que final feliz para o Cosme! Parabens Regina por essa atitude.

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